Aleph
Written By: Betusko
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abr•
18•12
Grãos de chuva fina deslizando sob o vidro da janela libertam o feixe de pensamentos que a tarde fria insistia em obstruir receosa em perder o domínio de um momento melancólico Como uma cunha em madeira de lei encharcada pouco a pouco com água do mar a quietude do momento é assaltada Um martelo açoitando uma bigorna estremece os mais íntimos devaneios entorpece a razão não faz frente ao chiado do afiador de punhais impecável em suas vestes brancas manobrando a manivela surreal Nestes momentos, o tempo acena com uma pausa providencial para impedir o surto e, soberano senhor, invertendo a ampulheta real permite apenas o som singelo da flauta transversal em homenagem a Krisna.
Desvelando segredos
Written By: Betusko
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jan•
09•12
Quando vi seus olhos
perdidos na luz da lua
percebi que éramos feitos
de pedaços de sombra e luz,
pressenti seus devaneios
seus suspiros contidos
perscrutei em seu semblante
seu jeito de dizer não e sim
permeei seus sentimentos
vasculhei as frestas de seu ser,
enquanto a cortina vermelha
dançava de maneira envolvente
embalada pela brisa do mar.
Mais adiante, na madrugada quente
respirávamos apenas o silêncio
e nossos poros exalavam
o mais puro perfume que há.
Fruto vivo
Written By: Betusko
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jan•
07•12
Natureza quase morta
ganha vida no pincel
de um Van Gog iluminado
porém, de minha paleta acanhada
salta apenas o improvável:
um par de seios indecifráveis
aflitos sob a luz mortiça da tarde
que desenha sombras sobre a sacada
daquele velho sobrado de Olinda,
sempre disposto a um carnaval.
Agora a modelo viva,
já com seu quimono vermelho,
largada sobre uma rede branca,
espalha no ar abafado
o aroma de um cigarro de cravo
e se diz morta de cansaço,
sem forças mesmo
para degustar da melancia
e das mangas-rosa do cenário.
Natal
Written By: Betusko
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dez•
23•11
No ventre da nova cidade
brincavam os sapos e as serpentes
cujas bocas malpassadas e rotas
lançavam injúrias e chispadas.
Dançavam com olhos de fogo
os sapos e as serpentes,
cuspiam nos olhos do céu
pedaços de fim de ano,
ano longo, ano louco
ano sem estribos, sem tributos,
ano arrastado, puxado a dentes
cortado à navalha sem fio
ano banhado em ácido sulfúrico
sulfetos e brometos de promessas
feitas em cima de um pano vermelho.
Nos braços da nova cidade
dormiam os anjos e os capetas
que foliaram o ano todo
e agora, sem fôlego, sem fágolo
dormitam debruçando as cabeças
nos gordos seios da criadora.
De suas bocas respingam os sonhos
de um futuro promissor, sem céu cinza,
sem céu náusea, todo mármore.
Fim de festa, braços dormentes
bocas cansadas de abrir e fechar
em intermináveis trec trec.
Olhos pesados, apitos, pipos ao longe
sanfoninhas e cachoeiras cachentas
cheias de restos de todos os rostos.
Adeus! Adeus! Feliz! Feliz!
Enxurrada de catambas alegres.
Agora a grama está seca
ainda brincam os sapos e as serpentes de petas
ainda dormem os querubins e os duendes
e ainda gritam uns tantos outros:
Feliz! Felino!Um bom! Um nada!
Um tubo de estrelas minguantes
e longas conversas de bar e esquina,
quinas de mesas com longos pecados,
E agora? E agora?
Bem, só nos resta cobiçar o Ano Novo.
Autolapidação
Written By: Betusko
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dez•
20•11
Memória das garrafas do beco
Written By: Betusko
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dez•
07•11
Montes de garrafas dormem ao pé do muro
cada uma tem uma estória para contar
a de champanhe promoveu toda contente
a comemoração do nascimento do filho do padeiro
a de cerveja afogou as mágoas de um torcedor inconsolável
mas o recipiente de vodka contou coisas muito estranhas
sobre drogas e baladas com ciladas
a garrafa de vinho do porto aportou em vários jantares
tinha uma de licor de cacau
que consolou a solidão de algumas senhoras
aquela de uísque doze anos era a mais arrogante,
animou comitê político de deputado eleito
e a de refrigerante diet ficou pela metade, foi trocada por coca-cola
a garrafa verde de aperitivo não quis dar depoimento
dizem que serviu para envenenar um desafeto
mas a garrafa de conhaque animou o baile do risca-faca
estava embriagada com o som da sanfona
por fim, escondida entre as demais, uma garrafa de cachaça solitária
trazia ainda uma fita vermelha amarrada e o lacre fechado
com esta ninguém contou conversa…
Game over
Written By: Betusko
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dez•
07•11
O tique-taque de seu coração
já não se hospeda mais em meus ouvidos,
ensurdeceu-me uma explosão prematura
com a força bruta de dois mil megatons
provenientes dos átomos precários
do nosso amor insuficiente
que tornou nossos caminhos bifurcados,
reféns de um par de óculos
com lentes bifocalmente trincadas
pelo embate inglório
entre a fome de viver,
visceral desejo -
e o muro intransponível
da sufocante solidão
que instalou-se entre nós
através do percurso melancólico
de um cotidiano desprovido de surpresas,
desconectado de um compromisso original,
deteriorado como um sonho não realizado
e assim nos despetalamos,
ao sabor da brisa cálida
de uma manhã primaveril.
Espiritualidade, que bicho é este?
Written By: Betusko
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nov•
24•11









